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# Perguntas e ideias de Um olhar sobre o mundo, de Lee Kuan Yew

O texto abaixo organiza os trechos que destaquei em Um olhar sobre o mundo, de Lee Kuan Yew, na edição de capa dura. As perguntas foram reformuladas, e as respostas parafraseiam suas ideias. Preservam observações e previsões da época de publicação, 2013. Não são uma checagem dos fatos atuais nem significam que eu concorde com todas as avaliações.

## Prefácio

### 1. Como um país pequeno, incapaz de mudar o mundo, pode conquistar espaço para sobreviver?

Lee considerava que Singapura precisava aceitar as condições fundamentais do mundo externo e usar seu espaço limitado para manter a flexibilidade. Precisava preservar três condições no longo prazo: permitir que as pessoas vivessem e trabalhassem em segurança, tratar os cidadãos com igualdade e dar à próxima geração oportunidades de continuar prosperando.

## China

### 2. Por que ele achava que o sistema chinês precisava evoluir, mas ainda não estava perto do colapso?

Sua avaliação se apoiava na melhora do padrão de vida, no aumento das oportunidades econômicas e na ascensão internacional do país naquele período. Trabalhadores rurais queriam entrar na classe média urbana, e a classe média queria continuar subindo. A maioria ainda esperava melhorar de vida e, por isso, tinha pouco incentivo para romper com a situação existente.

Ele previa que, à medida que mais pessoas entrassem e se consolidassem em novas classes sociais, aumentariam as exigências de transparência e participação nos assuntos públicos. Essa mudança, porém, levaria tempo.

### 3. Como a corrupção afeta um sistema que ainda funciona?

Ele previa que a China não abriria mão do controle abrangente dos assuntos nacionais e que as fraquezas em corrupção, Estado de direito e governança poderiam persistir. A integridade dos líderes máximos, para ele, não significava capacidade de controlar a corrupção em todas as localidades. Relações pessoais podiam influenciar nomeações, promoções e execução de políticas. A corrupção talvez não derrubasse o sistema de imediato, mas reduziria sua eficiência e impediria o país de alcançar o desenvolvimento de que seria capaz.

### 4. Como ele entendia a relação entre pessoas, leis e instituições na China?

Ele considerava que o exercício do poder dependia muito de pessoas concretas e de suas redes de apoio, ainda insuficientemente contidas por leis e instituições. A troca de líderes podia, assim, provocar mudanças de pessoal em vários níveis e gerar instabilidade.

Também comparava a compreensão de contratos e leis. Em sua observação, a China tendia a tratar acordos como parte de uma relação contínua, enquanto Singapura enfatizava a interpretação dos textos pelos tribunais, conforme a lei e as regras existentes. Ele previa que a China continuaria desenvolvendo suas instituições, mas manteria um poder central forte, pois a experiência histórica fazia a sociedade associar a força do centro à ordem.

### 5. Como ele explicava as condições para o sistema eleitoral de Taiwan?

Ele relacionava a adoção de um voto por pessoa em Taiwan à menor escala de governo e à dependência dos Estados Unidos. Considerava que as exigências americanas sobre o sistema político influenciaram a escolha de Taiwan.

### 6. Como ele avaliava a capacidade da burocracia chinesa?

Na época, elogiava a capacidade dos governos chineses em todos os níveis, observando que mais funcionários tinham contato com a educação ocidental, conheciam o mundo e dominavam o inglês. Via-os como pragmáticos voltados à riqueza, ao desenvolvimento e à tecnologia avançada. Rótulos ideológicos já não explicavam suficientemente sua atuação real.

### 7. Como ele esperava que a China ampliasse seu poder e sua influência regional?

Ele julgava que a China continuaria se fortalecendo enquanto tentava manter discrição, buscando um período prolongado de paz para desenvolver a economia e resolver problemas internos, sem provocar cedo demais as potências existentes.

Também previa que, em vinte a trinta anos, China e Estados Unidos alcançariam um equilíbrio de poder. A China primeiro afastaria as forças americanas da faixa de doze milhas náuticas, depois de sua zona econômica exclusiva de duzentas milhas, tornando-se o país mais influente da região.

### 8. Por que ele não via a relação China–EUA como repetição da relação EUA–URSS?

Ele considerava que, naquele momento, não existia entre China e Estados Unidos um conflito ideológico inconciliável como entre americanos e soviéticos. A China precisava do mercado, dos investimentos, da tecnologia e das universidades dos EUA; os EUA tampouco precisavam manter uma inimizade permanente com a China. Os dois lados tinham, portanto, interesses concretos em preservar a relação.

### 9. Como ele avaliava força, disposição e vínculos econômicos na questão de Taiwan?

Ele considerava assimétricos os custos que cada lado estava disposto a suportar. Para líderes chineses, Taiwan envolvia autoridade política e unificação nacional, de modo que poderiam aceitar custos de conflito maiores e mais prolongados que os Estados Unidos. Por isso, julgava que os EUA não entrariam em guerra com a China para defender a independência de Taiwan. Também entendia que o futuro de Taiwan dependia do equilíbrio de forças entre os dois lados do estreito e de uma eventual intervenção americana, não apenas de pesquisas de opinião.

Ele avaliava que a China usaria a força se Taiwan declarasse independência. Considerava ainda que a reunificação era apenas questão de tempo, impossível de ser impedida por qualquer país, e sustentava esse juízo com sua interpretação da Conferência do Cairo.

Ao mesmo tempo, previa que a integração econômica tornaria os dois lados cada vez mais difíceis de separar e levaria a China a perceber que não precisava usar a força. Partidos de Taiwan que tentassem mudar o rumo da cooperação econômica também seriam limitados pelos interesses de agricultores e empresas.

### 10. Como ele distinguia as exigências chinesas e americanas a outros países?

Nesse trecho, descrevia os Estados Unidos como desejosos de que outros países adotassem a democracia, mas sem obrigá-los a aceitá-la. Descrevia a China como mais preocupada em obter cooperação com suas exigências, sem pedir a adoção de seu sistema. Assim, distinguia duas orientações diplomáticas: promover uma ideia política e buscar interesses concretos.

### 11. Qual é o obstáculo mais concreto à flexibilização do registro domiciliar e da migração?

Ele considerava que as pessoas se deslocam para onde há mais oportunidades e que restrições não eliminam esse impulso. O problema é que as cidades receptoras precisam pagar por moradia, educação, saúde e outros serviços. Sem financiamento correspondente, flexibilizar a política imporia aos governos locais uma carga difícil de suportar.

Também mencionava a tentativa chinesa de desenvolver conjuntos urbanos no interior para distribuir os fluxos populacionais. A capacidade desses lugares de oferecer empregos suficientes era outra restrição.

### 12. Por que exigir esforço de gestores estatais não equivale a dar incentivos de empreendedor?

Ele considerava que, se o resultado da empresa não alterasse a renda do gestor, faltaria a ele o mesmo interesse pessoal de um empreendedor. Saber se patrimônio e sustento variam com os resultados influencia quanto esforço a pessoa dedica e que responsabilidades aceita.

Usava os direitos de propriedade para explicar a diferença e também mencionava a concentração de riqueza após a privatização russa.

### 13. O que a China precisa mudar para se voltar à demanda interna?

Ele considerava que o consumo depende tanto da distribuição de renda quanto da confiança no futuro. Hábitos de poupança formados por longos períodos de pobreza não desaparecem assim que a renda aumenta. Mais famílias comuns precisam participar dos ganhos do crescimento e acreditar que poderão manter ou melhorar sua vida para ter condições de consumir mais.

Por isso, relacionava a expansão da demanda interna à redução das diferenças de renda entre litoral e interior e entre campo e cidade, sem tratá-la apenas como uma questão de vontade de consumir.

## Estados Unidos

### 14. Como países pequenos da Ásia se ajustam quando muda o poder das grandes potências?

Ele considerava que, se a influência americana na Ásia-Pacífico caísse, países pequenos dariam mais atenção às exigências chinesas, mas tentariam evitar a submissão completa à China. Na época, não acreditava que a China acabaria expulsando inteiramente os Estados Unidos do Pacífico Ocidental. Os países pequenos ajustariam suas estratégias ao equilíbrio de forças, tentando preservar alternativas externas.

### 15. Por que Singapura precisa manter relações com China, EUA e outros países ao mesmo tempo?

Sua proposta era participar do desenvolvimento chinês e manter vínculos econômicos, sociais, culturais e de segurança com os Estados Unidos. A localização de Singapura continuava valiosa para os americanos, e aproximar-se da China não deveria exigir romper outras relações.

Ele considerava que pressão excessiva sobre países do Sudeste Asiático poderia empurrá-los para outra potência. Singapura podia, portanto, receber países diferentes e evitar transformar a cooperação em escolha exclusiva.

### 16. Por que a escolha da língua importa para o desenvolvimento de Singapura?

Ele via o inglês como condição importante de conexão com a comunidade internacional. Considerava que o ambiente anglófono deixado pelos britânicos poupou a Singapura o custo de aprender de novo uma língua internacional comum. Rejeitava claramente a proposta de escolher o mandarim como língua nacional, pois via a capacidade de comunicação externa como central ao desenvolvimento.

### 17. De onde vem o impulso contínuo de inovação dos Estados Unidos?

Ele valorizava a capacidade americana de usar recursos com mais eficiência e criar produtos e serviços. A quantidade de talentos não bastava para explicá-la: era preciso observar se a sociedade atraía e acolhia pessoas dispostas a experimentar.

Dava especial importância à imigração. Quem aceita deixar um ambiente conhecido tende a estar menos satisfeito com a situação atual e mais disposto a correr riscos. Para ele, os EUA ofereciam integração e desenvolvimento a essas pessoas, que continuamente traziam ideias, técnicas e novas formas de fazer negócios.

### 18. Por que vários centros em competição podem criar uma vantagem?

Ele observava que os Estados Unidos tinham vários centros capazes de captar recursos e atrair talentos de forma independente, sem que uma cidade precisasse definir o rumo do país inteiro. Lugares diferentes podiam desafiar uns aos outros e criar novos centros em torno de novos recursos e objetivos.

Comparava essa estrutura com a maior inclinação chinesa a um centro único e com os caminhos mais concentrados de formação das elites britânicas e francesas. Considerava que a competição entre vários centros favorecia novas ideias e produtos.

### 19. Que diferença faz a forma como uma sociedade trata empreendedorismo e fracasso?

Ele considerava que os EUA reconheciam empreendedores bem-sucedidos e permitiam que os que fracassavam recomeçassem, incentivando mais pessoas a empreender. Em contraste, a Grã-Bretanha que descrevia valorizava mais as classes estabelecidas e o prestígio das profissões tradicionais, dificultando a transformação de invenções em resultados comerciais.

Também observava que empresas americanas estavam mais dispostas a ouvir jovens e incorporar suas ideias ao funcionamento real dos negócios.

### 20. Que custos acompanham a competição e o dinamismo americanos?

Ele reconhecia que uma sociedade muito competitiva também apresenta fortes oscilações do desemprego, desigualdade de renda e grupos na base social com dificuldade para voltar à vida econômica. Inovação e eficiência não resolvem automaticamente esses problemas. Sua avaliação positiva dos EUA incluía o reconhecimento desses custos.

### 21. Por que um país com as melhores universidades ainda pode ter problemas de educação?

Ele considerava que uma economia precisa de mais do que cientistas e empreendedores de ponta: precisa também de muitos trabalhadores com capacidades básicas e habilidades profissionais. O sucesso das universidades de elite não compensa as deficiências da educação básica e técnica.

Temia que os efeitos dos cortes educacionais só aparecessem muito tempo depois. A responsabilidade dos estados pela educação também dificultava uma ação federal uniforme de melhoria. Assim, via a mesma estrutura descentralizada como um problema de governança nesse campo.

### 22. Como ele via os problemas, o discurso público e o modo de vida americanos?

Ele citava infraestrutura, diferenças de classe, discriminação racial e custos eleitorais. Também lembrava que a competição entre veículos de comunicação e o debate partidário ampliam os erros, exigindo que observadores distingam problemas reais de exageros.

Admirava a crença americana de que o futuro pode melhorar e de que problemas podem ser analisados e resolvidos. Ainda assim, considerava essa sociedade mais estressante. Embora admirasse seu dinamismo, talvez preferisse a Grã-Bretanha, menos pressionada, para morar permanentemente.

### 23. Por que China e EUA precisam evitar conflitos e participar juntos da ordem internacional?

Ele considerava a paz e a cooperação entre os dois essenciais à estabilidade asiática. Mesmo mais dependentes economicamente da China, Japão e Coreia do Sul poderiam manter relações de segurança com os Estados Unidos.

Na época, avaliava que armas nucleares tornavam muito improvável uma guerra direta entre China e EUA, mas que o custo da escalada, caso houvesse conflito, seria enorme. Os dois deveriam, portanto, evitar choques menores. Os Estados Unidos também deveriam incentivar a participação chinesa na construção da ordem internacional, dando à China razões para aceitar responsabilidades correspondentes.

### 24. Por que ele duvidava da capacidade externa de reconstruir o sistema político de outro país?

Ele considerava que governar depende de administradores existentes, serviços públicos e tradições sociais; não basta derrubar tudo pela força militar e recomeçar. Comparava com a manutenção de parte dos administradores durante a ocupação japonesa de Singapura para questionar a proposta americana de reconstruir e democratizar o governo iraquiano.

Preferia lidar com o sistema real do outro país e buscar interesses concretos. Duvidava especialmente da possibilidade de forças externas transformarem por completo sociedades de tradições históricas profundas.

## Europa

### 25. Qual era o problema do euro e como ele esperava que a Europa se ajustasse?

Ele considerava que unificar a moeda sem unificar as finanças públicas dificultava a permanência, no mesmo arranjo, de países com capacidades econômicas e hábitos fiscais muito diferentes. Via nisso um problema estrutural de instituições, não apenas a irresponsabilidade de um governo específico.

Na época, não acreditava que o euro pudesse ser salvo mantendo todos os membros como estavam. Imaginava uma dissolução parcial ou uma integração em camadas. A Alemanha poderia liderar um núcleo de países com competitividade semelhante, enquanto os demais cooperariam em ritmos diferentes.

### 26. Como ele avaliava os benefícios e custos do bem-estar social e da proteção trabalhista?

Ele reconhecia que o bem-estar e a proteção trabalhista europeus tornavam a sociedade mais moderada e reduziam a distância entre vencedores e perdedores. Sua principal preocupação era o enfraquecimento do incentivo a trabalhar e progredir quando trabalhar muito rendia quase o mesmo que depender de benefícios.

Previa que a competição externa acabaria obrigando a Europa a renegociar seu contrato social.

### 27. Por que ele considerava particulares as condições do bem-estar nórdico?

Ele via a forte identidade interna e a coesão social dos países nórdicos como condições importantes para a disposição de pagar impostos e compartilhar o custo do bem-estar. Considerava que a resistência à redistribuição diminuía quando as pessoas viam os demais como parte de sua própria comunidade.

A entrevista estendia essa explicação à semelhança étnica e genética. Ele atribuía ao Japão uma identidade semelhante, mas considerava que a China, extensa e marcada por diferenças regionais, não poderia simplesmente reproduzir o modelo. Essa inferência causal entre genética e coesão social não foi demonstrada no trecho.

### 28. Por que a Europa oscila entre aceitar e restringir imigrantes?

Ele considerava que a Europa precisava de imigração para atender necessidades econômicas e demográficas, mas enfrentava dificuldades de integração e pressão eleitoral. As políticas se ajustariam entre essas duas forças.

Ele ia além e atribuía a causa fundamental das dificuldades de integração a diferenças raciais. Essa atribuição não foi demonstrada no trecho.

## Japão, Coreias e Índia

### 29. Por que a estrutura demográfica japonesa o preocupava?

Ele considerava que a redução e o envelhecimento da população enfraqueceriam o consumo: pessoas mais velhas já possuíam muitos dos bens necessários e tinham menos vontade de comprar novos produtos. Também relacionava o dinamismo da inovação à população jovem e, por isso, era pessimista quanto ao longo prazo japonês.

Afirmava ainda que a criatividade de matemáticos atinge o auge por volta dos vinte anos e que depois não haveria avanços maiores. O trecho não apresentava fundamentação.

### 30. De que ele considerava depender a aliança Japão–EUA e a segurança japonesa?

Sua análise partia da capacidade americana de continuar arcando com os custos da aliança. Se a capacidade econômica e a influência regional dos EUA caíssem, o Japão poderia enfrentar uma pressão chinesa maior. Chegava a descrever o risco como tornar-se vassalo da China e imaginava que o Japão poderia considerar uma força nuclear defensiva como último recurso.

### 31. Por que a quantidade de armas não equivale ao poder nacional de longo prazo?

Ele usava a comparação entre EUA e Japão na Segunda Guerra Mundial para mostrar que reconstruir uma frota destruída depende da capacidade industrial e da base econômica. Armas existentes afetam uma batalha momentânea, mas não sustentam sozinhas uma guerra prolongada. Para ele, era preciso observar a capacidade contínua de produzir e repor, não apenas o estoque militar atual.

### 32. Por que ele achava que a divisão da península coreana poderia durar muito?

Ele considerava que a China via a Coreia do Norte como zona de proteção, temia a aproximação de tropas americanas de sua fronteira após uma unificação e não queria um vizinho unificado mais forte. Todos tinham, portanto, razões para agir com cautela e manter a situação existente.

Na época, previa que o problema norte-coreano poderia persistir por mais dez a vinte anos. Via o acesso mais livre da população ao mundo externo como uma condição capaz de mudar a situação.

### 33. Por que ele rejeitava uma comparação direta entre China e Índia?

Ele destacava diferenças na história de formação dos Estados, nas línguas e na coesão interna. Em sua síntese, a China tinha uma tradição mais forte de unidade, enquanto a unidade da Índia moderna se relacionava à integração do período colonial britânico. A Índia reunia mais línguas e sociedades regionais muito distintas, dificultando que líderes políticos se comunicassem com todo o país na mesma língua.

Por isso, considerava inadequado comparar capacidade de execução e caminhos de desenvolvimento apenas pelo tamanho da população.

### 34. Que hipótese genética e intelectual ele fazia sobre o sistema de castas indiano?

Ele inferia que a endogamia entre castas limitava a troca genética e relacionava essa limitação à inteligência do conjunto da sociedade. Comparava isso com os arranjos matrimoniais e reprodutivos dos funcionários da China antiga.

Essa hipótese sobre genética e inteligência não recebeu fundamentação científica no trecho.

### 35. Por que sua visão sobre a Índia mudou?

Ele reconhecia ter apoiado inicialmente a Índia por seu sistema democrático. Depois, passou a dar mais importância às restrições que a estrutura interna da sociedade impunha ao desenvolvimento. Considerava que a democracia não resolvia tudo automaticamente e que sociedades muito antigas contêm forças difíceis de mudar.

No caso indiano, enfatizava sobretudo as restrições do sistema de castas. Isso expressava sua mudança de foco: do nome do regime para suas condições internas de funcionamento.

### 36. Por que uma população jovem não se torna automaticamente uma vantagem?

Ele considerava que a população mais jovem da Índia poderia trazer impulso, desde que recebesse moradia, educação e melhores condições de vida. Se a oferta educacional não acompanhasse, o crescimento populacional também poderia ampliar o grupo sem habilidades básicas.

Ao mesmo tempo, previa que a China talvez se arrependesse de não ter flexibilizado antes sua política populacional.

## Sudeste Asiático

### 37. O que mostram as escolhas diferentes de Singapura e Malásia?

Ele usava a educação em inglês e o sistema judicial para mostrar que os dois países escolheram caminhos distintos depois da separação e que algumas escolhas são difíceis de reverter.

Concluía que precisavam aceitar suas diferenças, sem impor seus sistemas um ao outro. Ao mesmo tempo, Singapura precisava manter capacidade de defesa suficiente para dissuadir interferências externas e preservar suas próprias escolhas.

### 38. Por que a descentralização poderia ajudar a Indonésia a permanecer unida?

Ele considerava que permitir a gestão local e a participação na renda dos recursos reduziria o ressentimento contra a opressão central e a distribuição injusta. Esse arranjo teria mais chance de aliviar pressões separatistas do que a dependência contínua da repressão militar.

Previa que a autonomia local seria difícil de reverter, mas não a tratava como solução universal. Impasses políticos, infraestrutura e corrupção ainda poderiam dificultar o desenvolvimento.

### 39. Por que recursos naturais abundantes também podem enfraquecer o impulso de desenvolvimento?

Ele considerava que depender da renda de recursos naturais poderia deixar as pessoas satisfeitas em vender o que já possuíam, sem incentivo para aumentar a renda por trabalho e capacitação. Usava essa ideia para explicar parte dos problemas de desenvolvimento da Indonésia.

### 40. Como ele via Thaksin e a dificuldade de aprender com Singapura?

Ele considerava Thaksin um líder envolvido diretamente na execução, interessado em resultados rápidos e mais confiante na experiência empresarial e na intuição. Na época, previa que a Tailândia dificilmente voltaria ao domínio exclusivo da elite de Bangcoc e que a melhora da vida dos agricultores e a expansão da classe média sustentariam o consumo interno.

Mas duvidava da ideia de Thaksin de compreender Singapura após uma única viagem. Educação, habilidades, treinamento, igualdade de oportunidades e coesão social eram condições pouco visíveis a turistas. Estruturas étnicas diferentes também afetariam a possibilidade de transferir a experiência.

### 41. Por que ele passou do otimismo à cautela sobre as reformas vietnamitas?

Ele considerava que feitos de guerra não equivalem à competência econômica e administrativa. A autoridade da geração antiga de líderes vietnamitas vinha sobretudo da guerra, enquanto suas ideias estabelecidas limitavam as reformas. Em comparação com a China, faltava também uma figura de autoridade suficiente e compromisso firme com a reforma.

Também tratava do desequilíbrio e da corrupção entre quadros diante do enriquecimento fora do sistema, além dos efeitos deixados pela guerra e pela saída de talentos. Reconhecia a capacidade dos jovens vietnamitas, mas a via limitada pelas condições organizacionais e institucionais. Por isso, depositava esperança na troca de gerações.

## Singapura

### 42. Por que ele considerava especialmente necessária uma equipe de governo excelente em Singapura?

Ele considerava que países grandes, como Estados Unidos e Reino Unido, tinham mais recursos e capacidades sociais para continuar se desenvolvendo mesmo com governos medianos. Singapura, pequena, com poucos recursos e em uma região instável, não podia pagar o preço de uma governança medíocre.

Temia que as pessoas mais capazes preferissem finanças, negócios e profissões especializadas à política. Chegava a afirmar que um sistema de dois partidos levaria Singapura à mediocridade.

### 43. Como ele entendia a baixa natalidade e o que admitia?

Ele considerava que a baixa natalidade vinha de mudanças no estilo de vida e nas ideias, sem qualquer relação com fatores econômicos ou financeiros. Defendia oferecer subsídios generosos à natalidade por pelo menos um ano justamente para demonstrar essa avaliação. Se incentivos maiores já não estimulassem nascimentos, seria preciso buscar outros meios.

Ao mesmo tempo, via a questão populacional como uma das maiores ameaças à sobrevivência de Singapura. Admitia claramente não ter encontrado uma solução e precisar deixar a tarefa aos líderes seguintes.

### 44. Por que a grande abertura é ao mesmo tempo força e vulnerabilidade de Singapura?

Ele considerava que, após se separar de seu interior econômico, Singapura só obteria espaço suficiente para se desenvolver conectando-se amplamente ao mundo. Beneficiava-se do crescimento global, mas ficava exposta a mudanças externas fora de seu controle.

Diversificar relações e dependências reduz riscos isolados, mas não permite escapar ilesa de uma desaceleração generalizada da economia mundial. Ele usava o volume de comércio da época para ilustrar esse grau de abertura.

## Oriente Médio

### 45. Que outras condições ele considerava necessárias para a democracia criar raízes no Oriente Médio?

Ele considerava que, além da experiência de representação política, eram necessárias bases sociais como a igualdade de direitos dos cidadãos. Mudar apenas a forma de governo não bastava.

### 46. Como ele via a questão nuclear iraniana e os riscos da intervenção militar?

Na época, não acreditava que Israel pudesse impedir sozinho o desenvolvimento de armas nucleares pelo Irã. Considerava que os Estados Unidos talvez precisassem arcar com uma invasão terrestre para fazê-lo e que, por isso, uma ação militar era pouco provável. Imaginava também que os EUA tenderiam mais a fornecer armas a Israel.

Temia que bombardeios provocassem proliferação de armamentos na região e que erros de cálculo levassem a uma guerra maior. Chegava a discutir um conflito nuclear e seus efeitos sobre outras regiões.

## Economia global

### 47. Como ele avaliava o futuro centro de gravidade da economia mundial?

Ele considerava que esse centro se deslocava do Atlântico para o Pacífico e previa que a China poderia se tornar a maior economia após um período mais longo. A manutenção da influência conjunta da Europa dependeria de uma integração mais profunda.

Em suas previsões, as decisões chinesas e americanas teriam influência crescente sobre o mundo.

### 48. Quais são as condições para abrir o mercado de capitais?

Ele considerava que a abertura não deveria ser apressada enquanto o sistema financeiro e a regulação fossem frágeis. Após abrir, ainda seriam necessárias reservas, dívida controlável e bancos sólidos para enfrentar choques.

Relacionava o desempenho de algumas economias asiáticas em crises posteriores às lições aprendidas na crise financeira asiática, enfatizando que a abertura exige capacidades complementares.

### 49. Por que a globalização pode ampliar a distância entre trabalhadores?

Ele considerava que talentos de ponta podiam buscar oportunidades no mundo inteiro, obrigando empresas a pagar mais para retê-los. Trabalhadores pouco qualificados, porém, competiam com mais pessoas dispostas a aceitar salários menores e também podiam sofrer os efeitos da terceirização para o exterior.

Em sua análise, diferenças de mobilidade e de alcance da competição levavam à distribuição desigual dos ganhos da globalização.

### 50. Que vantagem o papel de moeda de reserva dá ao dólar e aos Estados Unidos?

Ele considerava que a disposição de países e investidores para manter ativos em dólares facilitava o financiamento americano a custos menores. Também permitia aos EUA suportar déficits e políticas expansionistas por mais tempo do que países comuns.

Para ele, os Estados Unidos conseguiam transferir parte desses custos a outros países.

## Energia e mudança climática

### 51. Como ele considerava possível desacelerar um crescimento populacional excessivo?

Ele enfatizava a educação das mulheres, considerando que ela muda a intenção de ter filhos e é um caminho importante para reduzir taxas de natalidade muito altas.

## Vida pessoal

### 52. Como ele via o fim da vida e o prolongamento da longevidade?

Ele discordava da ideia de prolongar a vida ao máximo independentemente das condições. Para si, desejava um fim rápido e com pouca dor, sem permanecer por muito tempo em incapacidade grave, mantido apenas por cuidados médicos.

### 53. Como ele media o valor da própria vida?

Ele o media por ter feito o possível para realizar aquilo que desejava e considerava-se satisfeito. Sua maior satisfação vinha de participar da construção de uma sociedade meritocrática, íntegra e racialmente igualitária. Esperava que essa construção continuasse depois dele.

### 54. Ele definiria uma boa vida para os netos?

Ele considerava que os netos tinham suas próprias experiências e circunstâncias históricas e sabiam como queriam viver. Pessoas de épocas diferentes fazem exigências diferentes à vida.

Não considerava impossível que os mais velhos influenciassem os jovens; distinguia fases do crescimento. No início, seria possível influenciar atitudes básicas. Depois, eles formariam seus juízos cada vez mais a partir da própria experiência e do comportamento de sua geração.
